• Reinaldo Cirilo

O que a tecnologia está fazendo com a gente? Hiperconectados...


Há aproximadamente dois anos embarquei na aventura de fazer um Mestrado em Comunicação. Por acaso (e ainda bem), eu fui parar na área de tecnologia e desde lá, venho estudando a hiperconexão com mais profundidade.

Já escrevi um artigo sobre isso e dedico minha dissertação ao tema. Nesses últimos dois anos, percebi o crescente interesse da área acadêmica sobre o tema, de grandes autores e também muitas pesquisas sérias sobre o assunto começam a surgir.

A hiperconexão não é exclusividade de uma geração (apesar de impactar de maneira mais pesada a geração Z – os nativos digitais) e já vem sendo tratado como um problema de saúde pública.

Para se ter uma ideia do que vem ocorrendo, dá uma olhada nesse documentário sobre um centro de reabilitação chinês onde os adolescentes viciados em internet e jogos são “desprogramados:

Neste local fundado em 2004 em Pequim e que foi um dos pioneiros do tipo (hoje existem centenas), os jovens passam por um programa (onde geralmente são levados pelos pais contra a sua vontade), onde são mantidas atrás das grades e vigiadas por soldados do exército chinês. O tratamento que dura de três a quatro meses, inclui medicação e terapia e as vezes inclui os pais. Os pacientes passam por treinamento físico inspirado no exército (pois muitos chegam desnutridos, por passar horas a fio jogando e sem se alimentar) é reparado seu sono e a dieta cuidadosamente regulada.

A intenção deste tipo de tratamento é fazer com que os pacientes se reconectem com a realidade. A taxa de reabilitação é de 70%, segundo estimativas. Os Estados Unidos também já possuí clínica desse tipo, recém-inaugurada na Pensilvânia. Ainda não é claro se o tratamento dessa maneira, com choque da realidade seja o melhor modelo, as discussões estão ocorrendo no mundo inteiro, sobre a melhor maneira de lidar com esses jovens (em sua maioria homens).

O termo “hiperconectado”, criado pelos cientistas sociais do Canadá Anabel Quan-Haase e Barry Wellman, se aplica exatamente ao perfil da geração Z. O termo é resultante de seus estudos de comunicação pessoa-pessoa e pessoa-máquina. Este significado refere-se ao uso de múltiplos meios de comunicação, como: e-mail, mensagens instantâneas, telefone, contato presencial e serviços de informação da web 2.0, intrinsicamente ligado, portanto, ao uso exagerado dos meios de conectividade e de informação.

Os que habitam o cenário da hiperconectividade interagem a maior parte do tempo com a web. A urgência é característica do modo de vida contemporâneo e nos leva à necessidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo, como disserta Alana Soares Albuquerque (2014). Ocorre uma verdadeira enxurrada de troca de informações, excesso de imagens, notícias em demasia e interações superficiais.

Não existe dúvida, que o smartphone foi um dos grandes responsáveis por essa cultura da conexão. Antes deles, existia a necessidade de um deslocamento físico, para se sentar e conectar-se. Essa liberdade fez com que a internet e o mundo estivessem disponíveis nas pontas dos dedos, 24 horas por dia. O cenário com dispositivos móveis descentralizou o acesso e facilitou a chegada dessa informação de maneira instantânea. Era o último elo na corrente entre o conteúdo e o internauta, como explica Eduardo Campos Pellanda. As atividades sociais deixaram de estar vinculadas aos lugares físicos: “Como resultado, estamos experimentando uma mudança radical nos nossos sensos de local, identidade, tempo, valores, ética, etiqueta e cultura” (J. MEYROWITZ, 2003)

O celular já é considerado pelos jovens uma extensão do corpo e desse vício inclusive surge uma patologia que se chama Nomofobia – que é a fobia causada pelo desconforto ou angústia resultante da incapacidade de acesso à comunicação através de aparelhos celulares (Wikipédia). As mudanças de comportamento, já causam alterações cognitivas nas crianças e jovens, como explica o professor de psicologia Olivier Houdé da CNRS-Sorbonne (O DESAFIO de educar o cérebro hiperconectado da Geração Z. Exame. 23/2/2015. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/ciencia/o-desafio-de-educar-o-cerebro-hiperconectado-da-geracao-z/>), quando questionado se o cérebro das crianças da era digital era diferente, explicou que o cérebro é o mesmo, mas os circuitos mudam. Diante do excesso de tela, complementa que os nativos digitais têm uma espécie de trem de alta velocidade cerebral que vai do olho ao polegar, utilizando sobretudo uma zona do cérebro, o córtex pré-frontal, para melhorar essa rapidez de decisão e de adaptação multitarefa, ligadas às emoções. Isso causa um excesso de respostas impulsivas, que precisam ser trabalhadas na formação do indivíduo para que sejam evitadas.

O site da Revista Glamour (https://revistaglamour.globo.com/Celebridades/noticia/2018/05/armandinho-faz-desabafo-sobre-smartphones-sou-viciado-cheguei-no-limite-dessa-loucura.html), recentemente trouxe uma reportagem sobre o cantor Armandinho que fez um desabafo emocionante sobre esse tipo de vício em smartphones e conexão com a internet. Ele postou em seu Instagram:

“Acho extremamente brega as pessoas se unirem nos restaurantes e depois de minutos se abandonarem mesmo continuando juntas. Acho extremamente burro, as pessoas viajarem e ao invés de contemplar a paisagem, ficarem jogando joguinhos. Acho extremamente perigoso dirigir ao volante no WhatsApp , acho triste sermos escravizados como nos filmes, algemados sem ter algemas, e pagar 7000 mil reais pra ser preso. Meus olhos foram destruídos, minha ansiedade piorou. E assim como o álcool na minha vida, o Smartphone me destrói e faz com que ao invés de estar escrevendo e tocando violão, esteja usando meu tempo criativo pra imaginar sentimentos e julgar coisas que nem sempre são reais na vida dos outros. Usarei a partir de agora este telefone convencional e uma câmera Go Pro pra viajar e mais nada. Mando as fotos e os textos para o escritório e eles postam pra mim. Não quero dizer se é certo ou errado. Cada um faz o que achar melhor da sua vida. Desculpem o desabafo, mas cheguei no limite dessa loucura toda. Sou Viciado em Smartphone. Não quero mais. “Não tenho mais WhatsApp”, mandem mensagens SMS. Valeu."

O cantor diz que abandonou de vez o smartphone, não tem mais whatsapp e nem quer atualizar suas redes. Ele postou inclusive a foto do seu novo aparelho que não acessa a internet.

Está mais do que na hora de repensarmos e reorganizarmos nossa vida digital, pois os efeitos podem ser devastadores. Em breve volto com mais textos sobre o tema.

Um abraço.

Fonte https://documentary.net/video/chinas-web-junkies-internet-addiction-documentary/

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