• Reinaldo Cirilo

Dispositivos móveis - História e Evolução

Atualizado: Mar 2


Para entrarmos no assunto dos dispositivos móveis e mobilidade de acesso à Internet, precisamos resgatar o histórico dos telefones celulares, que se tornaram equipamentos híbridos e grandes responsáveis pela transformação digital.

No livro #Hiperconectados, a autora Lúcia Taboada conta a história da primeira chamada telefônica que revolucionaria a indústria da informação: em 3 de abril de 1973, Martin Cooper (Figura 1) fez uma chamada para Joel Enger na Sexta Avenida em Nova Iorque: “Joel, aqui é Marty. Eu estou chamando você de um telefone celular, um verdadeiro celular portátil”. Foi a primeira chamada móvel registrada da história. Martin Cooper era diretor da Motorola, e Engel era engenheiro da Bell Labs, seu maior concorrente no setor.

O dispositivo era robusto, incontrolável, pesava 790 gramas, 8,9 centímetros de espessura e 33 centímetros de altura. Para completar sua carga eram necessárias dez horas. Enquanto Martin estava fazendo graça, os populares paravam no seu caminho; foi uma cena até então irreal, futurista, ver como alguém poderia estar andando durante um telefonema.

Em uma entrevista para a BBC, Martin Cooper explicou como a partir dessa primeira chamada veio a liberdade: “Os telefones móveis são sinônimos de liberdade. Estou contente por ter impactado a vida das pessoas porque os telefones móveis fizeram suas vidas melhores. Promover a produtividade torna a vida confortável e leva as pessoas a se sentirem seguras” (Lúcia Taboada, 2015).

Os dispositivos móveis nos ajudam a desterritorializar, ou seja, a ultrapassar os limites de um território, na medida em que não ficamos mais sujeitos ao controle do espaço – como as pessoas que aproveitam as horas confinadas nos engarrafamentos das grandes cidades para conversar com os amigos por celular (BAGGIO; VAZ, 2011, p. 4).

Importante lembrar que em 2007 surgia o primeiro smartphone realmente inteligente, segundo Taboada (2015), e que ele criou uma ruptura no padrão de acesso móvel à Internet; afinal, em 2007, era disponibilizado o primeiro iPhone da Apple (Figura 2). A maneira como as pessoas se relacionariam na Internet após seu surgimento e o padrão de aparelhos para se conectar, navegar e trocar mensagens sofreu uma guinada de 180 graus, que nunca mais parou de ser aprimorada.

Uma conquista importante com o avanço da tecnologia de rede foi a descentralização da informação, pois no caso de não haver acesso à rede era necessário um deslocamento físico, como uma biblioteca, por exemplo (Eduardo PELLANDA, 2008). Ocorre que acessar terminais de conexão à Internet, de maneira física, ainda era necessário. O cenário com dispositivos móveis descentralizou o acesso e facilitou a chegada dessa informação de maneira instantânea. Era o último elo na corrente entre o conteúdo e o internauta, como explica Pellanda. As atividades sociais deixaram de estar vinculadas aos lugares físicos: “Como resultado, estamos experimentando uma mudança radical nos nossos sensos de local, identidade, tempo, valores, ética, etiqueta e cultura” (MEYROWITZ, 2003, p. 97).

E quando as conexões com a Internet se tornaram móveis, nós não mais “logamos” de uma mesa de trabalho, presos por cabos a um objeto chamado “computador”. A rede estava conosco, em nós, o tempo todo. Então, nós poderíamos estar com o outro o tempo todo (TURKLE, 2011, p. xii)[1].

O ser humano, dentro dessa nova cultura, se vê na necessidade de estar conectado o tempo todo com outros seres humanos, e para esse tipo de comportamento foi criado o termo always on, que mais do que nunca tem tudo a ver com o homem contemporâneo. Não estar conectado é sinal de derrota, de estar sendo excluído, de estar fora do círculo de conversa de um modo ou de todo um estilo de vida (PELLANDA, 2008).

Quando os telefones não tinham identificação, as pessoas atendiam todas as ligações para saber quem queria falar com elas e qual era o assunto. Com as chamadas já identificadas em seu visor (ID), e sabendo quem é, a curiosidade é descobrir o que esta pessoa quer falar, o que evidencia a curiosidade humana de tentar estar em contato, participar da rede (PELLANDA, 2008).

A comunicação e as mídias foram impactadas como nunca, após a popularização de diversos equipamentos móveis que, por consequência, geraram outros desdobramentos tecnológicos essenciais para o funcionamento e desenvolvimento dos smartphones, os aplicativos.

O aplicativo WhatsApp é um grande exemplo da evolução da comunicação móvel, pois se trata de um app híbrido de mensagem (SMS), gravação de áudio, vídeo, envio de fotos, chamadas via VoIP e por vídeo, e tudo isso em real time, que é a característica mais admirada pela nova geração. As pessoas se relacionam de maneira completamente diferente, tornaram-se produtoras de mídia com um equipamento em mãos, prontas para atuar e produzir 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Com a chamada descentralização da informação, o ciberespaço ratifica ainda mais sua importância. Segundo Randy Walser (apud KRAMARAE, 1995, p. 38), o “ciberespaço é o meio que dá às pessoas o sentimento de que elas estão sendo transportadas, corporalmente, de um mundo físico ordinário para mundos de pura imaginação”. Importante frisar que este espaço não está vinculado às leis físicas, não ficando sujeito às limitações que essas leis impõem. Dessa maneira, esse espaço tem capacidade de ultrapassar as barreiras do tempo, espaço, velocidade e alcançar territórios tão reais quanto os físicos.

Para Lévy (2003), em meio às transformações das tecnologias intelectuais e dos dispositivos de comunicação surge um novo modelo de sociedade desterritorializada, que ele batizou de “comunicação todos-todos”. A característica principal desse tipo de comunicação é o suporte digital. Ele deve ser experimentado na Internet por meio dos chats, fóruns, sites de mídias sociais, entre outros. A diferenciação ocorre em relação à comunicação clássica de massa, focada em “um-todos” e na recíproca “um-um”, em que havia uma nítida separação entre os emissores e receptores passivos isolados uns dos outros e que não permitem uma visão global das relações e muito menos das trocas. O modelo de comunicação todos-todos é chamado assim porque “no ciberespaço [...] cada um é potencialmente emissor e receptor num espaço qualitativamente diferenciado, não fixo, disposto pelos participantes, explorável” (LÉVY, 2003, p. 113).

Lemos (2007) reconhece que as tecnologias sem fio transformaram as relações existentes entre pessoas e os espaços urbanos e criaram novas formas de mobilidade. Já Castells (1999) defende que os espaços de lugar foram se modificando pouco a pouco nas cidades contemporâneas e transformaram-se em um ambiente generalizado de acesso e controle da informação por redes telemáticas sem fio, criando zonas de conexão permanente, ubíquas, e os territórios informacionais. Para Lemos, os territórios informacionais são:

[...] áreas de controle do fluxo informacional digital em uma zona de intersecção entre o ciberespaço e o espaço urbano. O acesso e o controle informacional realizam-se a partir de dispositivos móveis e redes sem fio. O território informacional não é o ciberespaço, mas o espaço movente, híbrido, formado pela relação entre o espaço eletrônico e o espaço físico (LEMOS, 2007, p. 10).

O acesso à informação e as redes por meio da Internet, somadas à mobilidade e à transposição física, criaram uma cultura inédita da mobilidade, que tem implicações sociais, comunicacionais, políticas e estéticas. Essa mobilidade tem alcance global e difusão imediata, o que muda de maneira definitiva as tradicionais relações de tempo-espaço-lugar.

(Este capítulo faz parte da minha dissertação de Mestrado, que estarei publicando em trechos aqui no site).

Fontes:

BAGGIO, Adriana Tulio; VAZ, Otacílio Evaristo Monteiro. Você com fronteiras: mobilidade, estabilidade e território em uma publicidade de telefonia fixa. In: SIMPÓSIO NACIONAL ABCIBER. 5., 2011, Florianópolis. Anais eletrônicos... Florianópolis: Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura, 2011.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 2. vol. 12ed. São Paulo: Paz e Terra, 2009.

KRAMARAE, C. A backstage critique of virtual reality. In: JONES, S.J. (editor). Cybersociety: computer-mediated communication and community. Thousand Oaks – California: Sage, 1995, p. 36-56

LEMOS, André. Comunicação e práticas sociais no espaço urbano: as características dos Dispositivos Híbridos Móveis de Conexão Multirredes (DHMCM). Revista Comunicação Mídia e Consumo, v. 4, n. 10, jul., p. 23-40, 2007.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. 4. ed. São Paulo: Loyola, 2003.

MEYROWITZ, J. Global nomads in the digital veldt. In: NYÍRI (ed). Mobile democracy. Essays on Society, Self an politics. Viena: Passagem Verlag, 2003.

PELLANDA, Eduardo Campos. Comunicação móvel: das potencialidades aos usos e aplicações. Programa de Pós-graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, 2008.

TABOADA, Lucía. #Hiperconectados en una relación estable con Internet. Barcelona: Editorial Planeta, 2015.

TURKLE, Sherry. Alone Together. Why we expected more from technology and less from each other. Philadelphia: Basic Books, 2011.

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